Rapunzel da Laguna

Acendi ao Negrinho do Pastoreio
A minha vela, perdido na solidão…
E do céu a Estrela do Pastor veio…
E sorriu p´ra mim, lá do Saco de Carvão
Velando teu sono, o Cruzeiro do Sul,
Enquanto a Estrela Polar, p´ra cá do mar,
Deste lado do imenso abraço azul,
Guiava meus sonhos d´eterno navegar…
O Negrinho é afilhado da Virgem,
E p´lo Guri, p´la madrinha auxiliado,
O que se perde, aqui nesta romagem,
O que se desperdiça, é encontrado…
Meu grande amor, minha linda bailarina,
Noutra vida, noutro horizonte, sumiu…
Eu, nesta, peregrinei na triste sina
Da noite órfã de lua que outrora luziu…
Um dia, o Negrinho achou-te p´ra mim,
Ou achou-me p´ra ti – quem, perdido, estava?
Semeou nossos caminhos com gergelim,
E naquela manhã, quem p´ra mim olhava
Eras tu, ali no meio da multidão,
D´olhos tímidos, tão cheios d´esperança!
Neles, tive meu baptismo de imensidão
E, de novo, eu sou gulosa criança!
É do favo de mel, de ímpar cor de âmbar…
É do cacau, aveludado de avelã…
E é da paçoca, morena d´além-mar…
Essa cor doce e profunda d´Alma-irmã,
Que fluí, cheia, imensa, do teu olhar,
E sonha, em frente ao Mar do velho mundo
De poeira seca e d´estreito navegar,
Resgatar do além o amor naufragado...
Néctar de vida mil vezes renascido,
P´la íris teu coração espreita, exposto,
E saboreio-lhe o brilho quente, vertido
P´los cremosos sóis qu´iluminam teu rosto…
Clara candeia da pauta do meu canto,
Dessas duas escuras maças gostosas
Doas-me a luz pura, num suco secreto
E polvilhado d´esperanças formosas,
E do meu destino, com sábio pincel,
A tela renovas em sublime lavor,
Quando p´la tua longa trança, Rapunzel,
Subo à janela do recíproco Amor…
O teu riso é orvalho que me faz sonhar
Com este Mar terreno, maravilhado
Pelos caminhos ainda por navegar,
Ao descobrir beleza no velho mundo…
(DV – 9 de Outubro de 2007)
io ti aspettavo qui, dolce amore di mia vita!